A DESPEDIDA

 

Naquele dia eu acordei inquieta.
Já passava das 13:00h. Eu me levantava tarde, pois ia dormir quase ao raiar do dia e ouvia sempre às 4:30h, o cantar do galo imponente, que por ali ciscava.
Tomei meu café ajeitei a casa, sentei-me na rede com um livro na mão, após a caminhada pela praia.
O dia estava maravilhoso, quente, o sol iluminava as ondas que beijavam a areia.
Pela grande porta da sala, eu me deixava encantar por aquela paisagem inigualável. O vento balançava de leve o coqueiral e se ouvia ao longe o cantar dos passarinhos que pousavam hora aqui, hora acolá.
Um pouco mais à frente, os saguis brincavam retorcendo-se em mil malabarismos  e mordiscando as jacas daquela imensa jaqueira, que se erguia para o céu.
Um beija-flor chamou-me  atenção beliscando a primavera que se misturava às ramagens das árvores do jardim inclinado, pela topografia do local.


A casa era enorme, havia sido uma antiga igreja e lá montei meu cantinho de paz. O recanto dos cancioneiros com o teclado, o violão, a acordeón, presente de minha mãe e mais alguns objetos ligados à música.


Tiquita a gatinha cinza que por lá apareceu, adorava dormir em cima do teclado fazendo-me sempre companhia, passeando por meio de minhas pernas enquanto eu cuidava de algum afazer doméstico aqui ou ali.
No outro canto da sala, repousava meu cavalete e um quadro de meus pais, que estava acabando de pintar.
A grande sala, transpirava arte e com ela vencia a solidão dos dias em que fiquei neste pedacinho de céu.
Apesar do livro na mão, deixei-me ficar por algum tempo aurindo a paz daquele paraíso e escutando o som da cascata que cortava o caminho, logo ao final da escadaria que ia dar no portão que se abria para a estradinha no rumo do tablado que servia de porto, para as barcas de carreira e da escola.
Como não conseguisse ler, resolvi descer com o cavalete e pintar  lá embaixo, na casa principal que possui um puxado de cimento, alguns bancos de madeira, terminando no grande portão que se volta para a praia.
Montei ali o cavalete e fiquei pintando até cansar.


O calor estava estafante e resolvi entrar naquele mar que me chamava para o abraço de sua água cálida e calma.
Envolvida pelo “macarrão” de isopor, fui caminhando e depois nadando naquele fluido transparente. Meus pés já estavam longe do leito do mar, mas ainda enxergava o fundo, tal a cristalinidade daquela água cor de esmeralda.
Notei por perto alguns veleiros e iates que por lá costumavam parar.
Em um deles havia um homem, alto, bonito e bronzeado que pescava e quando em vez tirava um peixe da água. Eu quis me afastar para não atrapalhar  sua pescaria, mas ele me chamou e então me aproximei do veleiro.
Dobrei o macarrão e fiz dele uma cadeira e começamos a conversar. Ele do veleiro com a vara de carretilha na mão e eu dentro da água. Disse-me ser ele um professor de uma Universidade em uma capital brasileira e desenvolvia técnicas para energias alternativas em locais onde não havia energia elétrica.
Contei a ele que quando jovem eu pescava com meu pai, pescaria de rio e assim conversamos sobre as várias técnicas deste esporte tão agradável.
Neste ínterim chegou seu amigo, um médico que também estava no veleiro e vim a saber que sempre velejavam juntos e eram conhecidos das praias daquela região. Sergio convidou-me a entrar no veleiro e aceitei , coisa que nunca fiz antes, mas algo pediu-me que atendesse aquela solicitação. Segui a intuição. Serviram-me um refrigerante e Paulo, o pescador quis colocar uma música para mim e ficou procurando em seu IPOD. Sergio disse:

_ Mas há tanta música aí.
_ Eu quero esta e então ouvi sonata ao luar de Bethoven. Melodia que adoro.
Contei de minhas atividades na Ilha, do Centro espírita que lá existe e que eu estudava com seus moradores todas as noites, o evangelho segundo o espiritismo e também que os que lá habitavam eram antigos moradores de rua, hoje empregados daquela fazenda, todos assalariados, completamente recuperados.
A partir desse ponto conversa versou sobre a doutrina espírita e o assunto tomou o rumo das colonias espirituais e o que acontece após a nossa morte.
Paulo interessou-se dizendo acreditar na vida depois da morte física , porém afirmou não ter nenhuma religião.
Depois dali, nos sentamos nas cadeiras de um restaurante ao lado da casa da fazenda. Eles foram de barquinho e eu nadando com meu delicioso isopor.


O telefone tocou e dirigi-me para o banco, perto de onde havia deixado o quadro. Ele me seguiu automáticamente. Sentamo-nos ali mesmo, conversando animadamente como se houvéssemos só nós dois no mundo. A conversa estendeu-se até as 18:30h aproximadamente e Paulo quis ver o quadro que ali estava. Interessante que muito falamos sobre meu pai, que também era pescador e ele analisou bastante a pintura e deu-me algumas idéias para colocar em próximos quadros. Eu nunca havia antes ido pintar ali embaixo perto da praia.

Marcamos então um encontro para o dia seguinte as 10:00h , em que eu o levaria até minha casa para mostrar os outros quadros.
Ficamos ainda algum tempo sentados no banco e conversamos sobre as pessoas que partiram, seus pais e os meus, que estavam retratados na tela ali exposta.
Ao se despedir Paulo disse:

_Não se esqueça do encontro amanhã na pedra do elefante. Às 10 horas hein!

Referia-se a uma pedra lá existente, que ele mesmo deu o nome e que eu nunca havia notado que parecia um elefante.


Em seguida voltou ao restaurante, pegou o barquinho para dirigir-se ao veleiro.
De repente, caiu na água e o barquinho de motor ligado, seguiu adiante.
Enorme correria. Tiraram no do mar, porém já sem vida.
Sergio como médico tentou todas as técnicas para ressussitá-lo, sem lograr algum êxito.
Então compreendi, que o nosso encontro, a nossa conversa foi uma preparação para sua partida.
Eu nunca o havia visto porém uma força estranha, maior que nós dois, nos uniu e ele passou comigo as suas últimas horas. Por várias vezes ele repetiu:

_ Quem diria que eu iria encontrá-la em uma Ilha?


Era janeiro, dia 30 de 2010.


A barca da Policia Naval veio buscar o corpo. Olhei o céu. Ainda era dia mas a lua cheia brilhava, formando uma estrada dourada por sobre o mar.
Rezando e conversando com o inconsolável Sergio que ali ficara para levar o veleiro ao amanhecer, entendi o porque de nossa conversa, o porque da figura do quadro. Com certeza meu pai ali se encontrava para auxiliá-lo neste momento e a sua fisionomia o ajudaria a entender a verdade. Também compreendi porque entramos no recinto da fazenda, porque ali existe um trabalho sério de amor e as entidades espirituais poderiam agir e certamente foi o que fizeram para auxiliá-lo na passagem.

Quem seria ele, qual o elo envolvia nossos espíritos?

A interrogação ficou no ar enquanto a lua cheia contava de uma triste despedida, ao som da sonata ao luar.

DORME MEU AMIGO

Dorme, dorme meu amigo
Que as ondas embalem seus sonhos
As derradeiras horas passadas comigo
Preparavam sua passagem pra outros planos.

Breves momentos de emoção intensa
A espiritualidade agindo definida
Sem saber de nada a alma segue e pensa
Na pequenez e no esplendor da vida.

Fui levada até você por certo
Como instrumento nesta despedida
E assim pude estar bem perto
De seu ser, na hora da partida.

Ignorávamos o desfecho que chegava
Mas a conversação contava da vida espiritual
E aquele colóquio entre nós planejava
O seu desligamento da vida atual.

Despedimo-nos, tomou o bote rumo ao veleiro
Um mal súbito o abraçou e caiu no mar
Era ali o seu momento derradeiro
Minha prece entre lágrimas subiu ao ar.

Nosso encontro ficou inacabado
Como inacabada é a sinfonia do ser
A sonata ao luar marcou o instante inesperado
E sob a lua cheia, seguiu pra outro viver.

Marisa Cajado Ilha Grande , 30 – 01- 2010

 

Em homenagem a um amigo que conheci e com ele passei os últimos momentos de sua vida. Morreu vitima de um enfarto fulminante.

Os nomes são ficticios .

 

 

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Créditos

Fundo Musical: Sonata ao luar de Bethoven-

 

Arranjo: Sibelius

 

Imagem -Tela Marisa Cajado

 

 

 

 

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